Gran Finale

O que a gente espera, não vem.
O que a gente espera que não vai vir, vem.
A gente finge que se surpreende, mas a certeza permanece - a certeza da incerteza.
E essa certeza tão incerta nos mostra dia à dia, que só acontece o que nós não esperamos e do jeito que não queremos.
Mas até isso já é previsível, mas só paramos pra pensar depois.
Acho que fingimos um pouco que não sabemos o que acontecerá, só pra manter a graça da vida.
E quando queremos dar uma de espertinhos e adivinhar, a vida nos dá uma rasteira.
Para nos mostrar que não sabemos de nada, promover seu próprio espetáculo e dizer: aqui que manda sou eu.
Afinal, faz parte do show: O gran finale.
E ele tem de ser inesperado.
Chuva

eu amo chuva.
eu amo quando chove bem muito.
eu me sinto disposta e feliz.
eu me sinto completa, sinto que a chuva faz carinhos em mim.
eu escrevo poeminhas e fico em baixo das cobertas.
eu cometo pequenas loucurinhas e fico impune.
Eu ouço as músicas mais bonitas, e elas estão tocando só pra mim, só pra mim.
eu sinto amor, sinto, sinto, até doer, e essa dor não me faz mal.
sinto teu amor bem longe, e não me sinto triste por isso.
eu tenho amor, podia não ter amor nenhum.
eu caminho leve com os pés no horizonte (a linha do horizonte me distrai...), eu caminho leve sem pés no chão.
Pois eu não dou passo nenhum, hoje eu posso só ficar quietinha observando as nuvens e os bichinhos que procuram abrigo nos buracos e fendas por trás dos corações que tem muros.
Quem tem pressa é o tempo, é a vida, eu não tenho pressa nenhuma.
Eu tenho toda a eternidade, eu posso ter, só preciso de amor para isso, nada mais.
Todo tempo é muito pouco, se eu posso simplesmente pensar.
Se eu posso ir pra dentro de mim, se eu posso mergulhar nesse abismo escondido e nem querer voltar.
Não me tire essa liberdade, não me tire o que faz bem, não me acorde, porque embora pareça eu não estou dormindo, eu estou aqui, só estou longe de você, tão longe que você pensa que meus olhos se fecharam, mas eles estão te olhando o tempo todo.
Merci Virginia.

Minha incorrigível melancolia impede-me de ir.
Inúmeras perplexidades me anuviam.
Eu vejo todos os seres como imagens com contornos imprecisos.
Preciso de alguém cuja mente caia como um machado sobre o bloco de madeira; que julgue sublime o cúmulo do absurdo e adorável o laço do cordão de um sapato.
Tudo metodicamente organizado para evitar que nos sintamos sozinhos.
(...) subitamente baixou sobre mim o obscuro, místico sentimento de adoração, de perfeição que triunfa sobre o caos.
(...) quero solidão onde possa desdobrar em paz tudo que possuo.
Assim, aos poucos afastarei essa coisa dura que cresceu em meu coração. Aqui, porém, as sinetas não cessam de tocar, os pés se arrastam perpetuamente.
Nestas paredes estão inscritos os nomes de guerreiros, estadistas, alguns poetas infelizes (o meu estará entre estes.
Vejo pássaros selvagens, e instintos mais selvagens que os mais selvagens pássaros erguem-se do meu selvagem coração.
Também eu sou por demais complexa. No meu caso algo sempre flutua, desvinculado de tudo.
Agradeço-a por ter existido, e fazer eu não me sentir alguém tão só.
Com sentido ou sem?

Freqüentemente ouço coisas do tipo, "isso não faz sentido".
Pergunto-me: O que seria fazer sentido?
Se fazes algo que para outrem não faz sentido, mas para você faz, então tem sentido, não tem?
As pessoas adoram atribuir colocações ao que não entendem, se você não entende algo então diz: "Não faz sentido". Isso me enerva.
Se você não entende algo, é problema seu. Se você faz coisas para que façam sentido para outras pessoas, é problema seu também. Mas quando tudo que você faz vem diretamente de dentro de você mesmo, sem análises, é certo de que nem todos entenderão, porque nem todos possuem liberdade de pensamento.
Quando vejo algo que as pessoas julgam louco, ou sem sentido, para alcançar uma melhor compreensão, me coloco de imediato no lugar da pessoa que produziu a ação ou pensamento.
E tudo se torna tão mais claro!
O que faz do mundo tão dividido, são as grades e paredes de tijolo e concreto que cada um cria na sua própria mente.
E parece que as paredes estão ficando cada vez mais comprimidas, a "modernidade" criou uma falsa ilusão de liberdade.
Tem horas que bate um desespero, porque eu não nasci em 1900? PORQUEEE?
Eu teria sido uma vanguardista das boas.
Mas nunca é tarde para um renascimento de movimentos, revoluções e manifestos. ou é?
Eu não gosto da idéia de pôr a culpa do mundo estar do jeito que está em ninguém, é injusto botar a culpa nos líderes de estado, presidentes e etc, se mais culpados são aqueles que os colocaram no poder, se mais culpado é quem fica sentado vendo tudo acontecer. Você é o mundo, então você é culpado, por fazer algo de errado, ou não fazer nada, a culpa é a mesma.
“Do seio da terrível miséria física e moral deste tempo, espera-se, sem desesperar ainda que energias rebeldes a toda a domesticação retomem pela base a tarefa da emancipação humana!”
André Breton.